Os dados da última pesquisa TIC Domicílios 2009, que chegou a sua 5ª edição, nos mostram a evolução da posse e uso das tecnologias de
informação e comunicação no Brasil. Ela nos dá uma visão ampla da situação da inclusão digital no Brasil. Olhando para os números podemos
perceber que 27% dos domicílios já possuem acesso a Internet e 34% já possuem computador. Ao invés de olharmos somente o número precisamos
ainda analisar a tendência desse crescimento. Em 2005 tínhamos 13% de domicílios com acesso a Internet, em 2006 14%, em 2007 17%, em 2008
20% e em 2009 27% considerando somente a área urbana. Considerando a área rural temos 24% dos domicílios com acesso a Internet. Com esses
dados podemos calcular a taxa de crescimento. Fazendo um exercício de previsão com a taxa de crescimento média de 16% podemos supor que
o acesso a Internet pode atingir o número de 90% de domicílios em 2017, o que seria espetacular.
No entanto será que a tarefa de Inclusão Digital estaria cumprida com essa taxa de acesso?
Para responder essa questão precisamos definir o que é inclusão digital. Nesse sentido já existe um consenso de que a inclusão digital
é acesso a toda infraestrutura para qualquer pessoa poder usar o computador e a Internet, além de oportunidade para obter conhecimentos básicos
para manuseá-lo. No entanto consideramos essa definição muito limitada e apresentaremos a seguir os motivos porque a consideramos assim.
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Não podemos simplesmente pensar o tecnológico e esquecer o aspecto pedagógico de como se apropriar da
tecnologia. É a educação e conscientização que mostrarão os caminhos para que essa apropriação se dê de maneira que o usuário a utilize
para sua emancipação, como ferramenta e não se subordine a ela, utilizando-a simplesmente como receptor de ideias como utilizamos a
televisão.
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O mercado vaticina de que o próprio avanço da economia trará inevitavelmente a inclusão dos excluídos digitalmente. Se
deixarmos o mercado tomar conta do processo teremos novamente o poder hegemônico dominando, expandindo e consolidando os monopólios
informacionais, subordinado a dinâmica empresarial do lucro. O professor Sérgio Amadeu já nos alertou: ?O mercado, as forças da oferta,
primeiro pensam em vender e ampliar as vendas de seus produtos e serviços. Dificilmente a inserção social ocorrerá como uma
externalidade positiva do cruzamento das curvas da oferta e da demanda produzidas pelas forças de mercado ou, também, por um ato
voluntário e consciente do empresariado sério e altruísta?.
A Internet nos proporciona ferramentas que aumentam o poder da democracia. Ela possibilita que qualquer pessoa possa publicar suas
ideias e disponibilizar na rede. Podemos acompanhar mais de perto as ações de nossos governantes. Existem inúmeras possibilidades para
ler conteúdo e não somente alguns poucos canais abertos como na televisão. Explorar essas alternativas e opções da Internet é garantir
seu uso democrático.
Além disso, por essa característica de ser extremamente democrática, a Internet pode levar a vários caminhos diferentes, tanto os
emancipadores como os não emancipadores. Sem uma proposta pedagógica clara de apropriação dessa tecnologia podemos subutilizá-la e
corrermos o risco de não retirar o máximo dessa ferramenta para a construção da cidadania.
O local de acesso é um fator importante para conscientizar o usuário de como utilizar a rede. A mesma pesquisa, que citamos
anteriormente, nos mostra que 48% do acesso à Internet é feito na casa das pessoas, seguido pelos acessos em centros públicos de
acesso pago, as Lans houses, que ficam com 45% dos acessos. Os centros públicos de acesso gratuito ficam com 4% dos acessos. Abaixo uma
tabela com esses dados.
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Local de acesso individual à Internet
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Em casa
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50%
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Centro público de acesso pago
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44%
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Na casa de outra pessoa
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26%
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No trabalho
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22%
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Na escola
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14%
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Centro público de acesso gratuito
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4%
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Portanto percebemos que a escola e os centros públicos de acesso gratuito (Telecentros) somam juntos 18% o que é muito pouco. Nesses
espaços deveria haver um projeto pedagógico para a conscientização sobre o acesso e temos visto muitos projetos com um trabalho de
conscientização e construção da cidadania excelentes. Mas infelizmente percebemos que estes ainda não são a maioria, quando se fala
em inclusão digital, são propostas de acesso a tecnologia sem um acompanhamento pedagógico que eduque a sua utilização de uma maneira
crítica e consciente. Se continuarmos nessa visão limitada para a inclusão digital teremos novamente uma tecnologia sendo utilizada
para controle social e não para a construção da cidadania.
Ao analisarmos a tendência de avanço do acesso ao computador e à internet percebemos que o maior potencial de crescimento é nas classes
sociais que usarão acessos públicos, somando ao projeto de abertura de 3 mil Telecentros que o governo federal acaba de lançar, temos
hoje uma grande oportunidade de trabalho, teremos muito mais gente acessando, temos é que garantir a qualidade destes acessos.
Para concluir apresentamos aqui uma definição mais ampla, ainda em construção, do que seria a inclusão digital. Inclusão digital é a
disponibilidade de acesso à rede mundial de computadores a todas e todos aqueles que com a utilização dessa tecnologia podem
desempenhar qualquer atividade para a promoção humana, bem como acesso a formação para o acesso. Formação essa, crítica e consciente,
que contemple não somente a habilidade técnica para o acesso, mas a formação de uma consciência crítica, de forma que a emancipação do
ser humano seja o principal objetivo. Quem sabe no futuro não tão distante o povo possa se apropriar dessa tecnologia transformando-a
conforme suas escolhas para a construção efetiva da cidadania.
André Bordignon
Referências
1. Análise dos Resultados da TIC Domicílios 2009:
http://www.nic.br/imprensa/releases/2010/rl-2010-06.pdf
2. INCLUSÃO DIGITAL, SOFTWARE LIVRE E GLOBALIZAÇÃO CONTRA-HEGEMÔNICA.
http://www.softwarelivre.gov.br/artigos/artigo_02/

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